Mad Man.

08Oct08

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Nem se compara a genialidade dos Sopranos que pra mim é, e sempre será, a melhor série de TV de todos os tempos. Mas confesso que já estou absolutamente apaixonada por essa nova série, cuja segunda temporada estreiou em finais de Julho na TV americana. Mad Man já tinha ganhado Globos de Ouro por melhor série dramática de TV e melhor ator e acabou de levar vários Emmys das muitas indicações que tinha.

O enredo trata da conturbada vida de um publicitário em Nova York no início dos anos 60. Don Draper é diretor de criação da Sterling Cooper, agência na Madison Avenue. O personagem é bom e na atuação do muito sexy Jon Hamm, criaram a figura mais atraente da TV na atualidade. (explicando melhor: não é um Tony Soprano, nem se compara; e eu ainda continuo sonhando com o House `as vezes).

A série é do mesmo produtor dos Sopranos e dá pra reconhecer uma certa familiaridade. Comentava com uma amiga, já viciada como eu, que o forte desse produtor é casting. As personagens femininas são interessantíssimas. As secretárias do Mad Man são o máximo e a mulher do Donald Drape é uma bomba relógio.

A série mostra que publicidade não mudou tanto assim. Redatores e diretores de arte tem seus trabalhos destruídos em poucos minutos na reunião com o diretor de criação. Atendimento tem que jogar tenis e sair pra beber com os clientes. Eles mostram bem o ego da categoria cujo tamanho, na minha opinião, só perde para o dos arquitetos. Dá pra ver os meninos deslumbrados que escolheram publicidade só pra comer a mulherada e a certa altura o Don está se servindo de whisky na sala do chefe quando este diz que muitos escolheram a profissão só por amor a garrafa.

Outro detalhe surpreendente da séria é ter gente muito capacitada fazendo bom trabalho de acessoria sobre história da publicidade. Ao longo dos capítulos aparecem campanhas memoráveis que são referências históricas. Num dos capítulos os criativos estão reunidos a falar mal de uma campanha de fusca que foi genial na época, só porque era de outra agência. Falar mal do trabalho dos outros prevalece até hoje. Se a idéia não foi sua ela não é boa.

Quando eu assistia Sopranos sentia fome. Sempre que o Tony aparecia comendo e abria aquela garrafa litro e meio de Coca-Cola eu morria de vontade de comer espaguete a bolonhesa. Muitas vezes eu levantava pra cozinhar. E como tinha Merchandising bem feito nos Sopranos.

Assistindo Mad Men dá vontade de tomar whisky e imagino que de fumar também.
Todos os personagens estão constantemente a fumar. Um casal fuma na cama. Um ginecologista fuma praticamente pra dentro da paciente. Um chefe coloca vodka no iogurte do café da manhã. Garrafas de cristal Baccarat com os mais lindos copos estão em todas as salas. Os lanchinhos das reuniões é composto de Blood Marys e coquetel de camarão. Na hora do almoço vários dry martinis nas mesas dos charmosos restaurantes da Nova York anos 50. E cigarros, muitos cigarros.

A caixa dos DVDs da primeira temporada abria como um isqueiro. Acho que deve ter sido proibida porque a que eu comprei já não era assim. Conhecendo os americanos eu não duvido nada.

A trilha sonora da abertura é chique. Faz lembrar um pouco a do Monsieur Poirot, série adaptada da obra de Agatha Christie (passava no Brasil?).

Mad Man tem cheiro e cor de madeira. Madeira de caixa de whisky, de balcão de bar e de mesa de escritório do papai.

http://www.amctv.com/originals/madmen/

Lixo e ralo

13Sep08

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The Reticent Child (set of three Prints), 2004.
Print by Louise Bourgeois.
Dry point with hand coloring

Muito se fala da maternidade. Fala-se tanto que eu acho o assunto chato e tenho muito medo de ser chata quando falo sobre o meu filho.

O meu bebê não quer mais mamar no peito. Deixou de querer há 2 dias. Cedo de manhã ou antes de dormir tento amamentá-lo e ele me empurra bravo. Muitos irão pensar – “Oh Ana, já chega, o cara já tem 10 meses” . Eu sei, mas é que, desde que chegamos a NY ele não come bem. Já não quer papinhas de bebê, mas perde a paciência quando não consegue comer rápido a comida em pedaços. Estão lhe nascendo os dentes só agora tardiamente, essa é a única suposição que posso fazer sobre o seu mal estar. Meu filho hoje é um menino chorão.

Acabo de sair do banho onde com água quente tento esvaziar o seio esquerdo que ultimamente era o único que ele queria. Quando nasceu também era assim. Li que os bebês quando nascem sempre gostam mais do seio esquerdo porque tem o som do bater do coração da mãe que é o que eles escutam mais forte dentro do útero. Hoje, terceiro dia sem amamentá-lo e vendo um líquido já meio ralo esguichar no banho, sinto uma dorzinha no peito, lá dentro, uma vontade de chorar. Acho que é uma saudade do que está acabando. Meu filho hoje é um menino crescido que quer andar.

Ganhou seus primeiros livros esses dias e o que mais gostou foi um com fotos realistas de animais. Cada página virada mostra um bicho da fazenda: cabra, porco, vaca, pato, coelho, cavalo, galinha e cordeiro. Divino acaso que colocou esse livro nas minhas mãos no dia em que o comprei. Veio junto um DVD que cala o Fausto e que, muito concentrado, vai abrindo a boca enquanto assiste os bichinhos na fazenda. Cada animal que aparece tem sua música e antes de mostrar o próximo, criancinhas em voz-off despedem-se de cada animal – “bye piggy, bye horses, bye cow”… e assim passam-se 20 minutos que é quanto dura o filme. Resolvi interromper o jantar de hoje quando contei que tinha passado o filme duas vezes e ele até que já tinha comido bem. Meu filho já gosta de televisão.

Meu café da manhã tem sido restos do que o Fausto não come. Resto de uma banana amassada onde eu já tenho preguiça de colocar All Bran, como eu fazia ao princípio pra melhorá-la; mais meio iogurte com uma metade de maça. O que eu não consigo engolir vai para o ralo.
Tudo é lixo ou ralo. Eu já desenvolvi uma relação com esses portais . Curvo-me diante deles várias vezes num dia. Líquidos já frios das minhas sopas fracassadas escorro no ralo da cozinha. As tentativas com alimentos sólidos insossos escorrem no plástico do saco de lixo por cima de fraldas fechadinhas como embrulhos. Sopa cor de laranja por cima de algodão branco e verdinho. As fraldas tem estampa de ursinho Puff. Vejo o ursinho Puff se afogar em sopa todos os dias. “Bye ursinho Puff”.
No banho escoa muita espuma pelo ralo da banheira e lá vai um pato, um jacaré, dois hipopótamos e uma baleia. De manhã sempre os encontro juntinhos, sobreviventes, depois de mais um banho.

O dia termina e eu cheiro à sopa. Minha roupa e a do Fausto vão juntas para o balde. Antes de tomar eu um banho ainda tenho que lavar o carrinho onde tem resto de almoço em restaurante e sujeira das calçadas de NY nas rodinhas. Quando almoço fora não consigo distinguir, no meu prato, os pedaços originais do que pedi daqueles que já passaram pela boca do Fausto, que cospe metade das tentativas de apresentá-lo a massas, sushi, carne de hamburguer, batata assada, sopas e queijos.

Ele está dormindo há duas horas. Daqui vejo o céu no fim da rua e o lugar das torres gêmeas está marcado com dois focos de luz fortíssimos apontados para o céu. Hoje é 9/11. O Fausto gosta de bandeiras e passa o dia nos passeios de carrinho a apontá-las como se me mostrasse - “olha lá mais uma mãe”. Hoje estavam todas a meio palmo. Disse pra ele: “um dia, quando você for mais crescido, vou te contar uma história passada aqui nessa cidade”.

Depois do banho assito TV baixinho. Está tudo limpo, arrumado e apagado. Tudo quieto a espera de se repetir amanhã. Alguém acreditaria em mim se eu contasse que sinto saudades dele quando ele dorme?

O monarca

17Aug08

O monarca veio sozinho. Sentou-se a nossa mesa pra almocar. Além de ser bem mais alto do que parece nas fotografias, reconhece-se de imediato a fala fanha já muito conhecida.

Seus olhos são muito azuis, iguais a de seus antepassados. É um Azul de casas nobres da Europa que fez casamentos sem misturas. Juntou sempre azul com azul.

Sua pele é branca e um pouco flácida. Sentado ao meu lado parece frágil. Tem um aperto de mão mole e as unhas um pouco mais crescidas do que deveriam. Suas mãos finas tem a pele mais lisa que as minhas. Olho as mãos enquanto escuto relatos que falam com carinho de um professor na Suica, de infâncias passadas no campo, do gosto por cavalos. Tudo muito calmo, lento e delicado.

Me fez lembrar talco e trópicos. Difícil olhá-lo sem pensar em tempos antigos.

ZHANG HUAN

12Aug08

Preciso guardar esse nome.
Acho que a dificuldade que temos em conhecer e entender a China reside nesse problema de linguagem. Como vou conseguir decorar os nomes das coisas que vejo e gosto?
Zhang Huan - daqui pra frente quero tê-lo sempre comigo pra dizer a toda a gente que descobri o meu artista chinês favorito.
Porque agora todo mundo precisa ter um artista chinês da sua predileção se você quiser impressionar, mostrando que anda muito bem informado.

Eu não conhecia nada. Ou melhor, nada me saltou aos olhos, nada me agradou, até chegar a minha casa um catálogo de exposição em NY desse cara. Quando abri pensei. Isso sim é a tão badalada arte dos chineses modernos que o mundo cultua.

Ele tem as qualidades dos artistas que eu realmente admiro em artes plásticas – trabalha materiais variados, trabalha várias técnicas, desenha muitíssimo bem e seu trabalho é diferente de tudo o que eu já vi mesmo quando faz lembrar trabalhos de outras pessoas.

No site dele dá pra ver que o cara é bom há muito tempo e ele tem só 43 anos. Desenha, pinta, fotografa, esculpe, modela, faz performances, tudo isso muito bem.

Impressionante o trabalho com peles de animais desses gigantes: http://www.zhanghuan.com/ShowWork.asp?id=70&iParentID=2

Os seus desenhos com cinzas me fazem achar que o Vik Muniz talvez precisasse ser um pouquinho mais deprimido pra conseguir alcançar essas alturas.

http://www.zhanghuan.com

Robert Therrien

09Jul08

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Visitar as galerias de Chelsea em NY é um passeio bem legal mas também um pouco cansativo na minha opinião. É muita galeria pra pouca arte bacana. Os espaços expositivos são lindos mas falta produção de qualidade pra tanta exposição.

Pace e Gagosian, duas importantes galerias (e também as minhas preferidas) com unidades em uptowon também, tem espaços enormes e lindos em Chelsea, sempre com exposições importantes.

Até 11 de Julho a Gagosian mostra um trabalho desse americano, Robert Therrien, que imediatamente me fez pensar que é assim que o meu filho vê hoje o mundo.

Ele é mais conhecido por essas esculturas gigantes de objetos do cotidiano mas tem um trabalho bem variado e consistente. O estranhamento diante de uma escultura dessas é tão prazeroso que só pode estar relacionado as sensações da infância.

Percebo no Fausto atração por brincadeiras que eu me lembro de fazer. Ele já se fascina com cortinas e eu sei que adorava me enrolar nas cortinas pesadas da sala da casa onde eu nasci. Minha irmã e eu nos enrolavamos fazendo um casulo. Adorávamos. Minha mãe sempre avisava que o varão um dia ia cair nas nossas cabeças. Nunca caiu.

Esconder-se embaixo na mesa enquanto os adultos jantavam era uma maravilha. Analisavamos a conversa olhando a expressão dos sapatos. Era como se eles estivessem a falar uns com os outros.

Hoje percebo o Fausto no chão a descobrir cantos desconhecidos e isso deixa-o absolutamente excitado e feliz. Quem não se lembra que embaixo da mesa pensávamos que ninguém sabia que a gente estava lá. Até uma certa idade bastava tapar os olhos pra desaparecermos, como se as mãos tapando a visão escondessem o corpo todo.

http://www.gagosian.com/artists/robert-therrien

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Fui entrevistada pela Mona Dorf no programa Letras e Leituras da Radio Eldorado.
Abaixo transcrevo o link pra quem tiver curiosidade de ouvir.

http://www.letraseleituras.com.br/entrevistas/?a=ana_carolina_de_oliveira_ramos

A Aia

28May08

Por conta de uma entrevista que dei ontem ao programa “letras e leituras” da Radio Eldorado lembrei-me do primeiro livro que li na vida. Foi uma antologia de contos do Eça que minha mãe de deu de presente. O Título do livro era “Singularidades de uma Rapariga Loura” que é o nome de um o conto do autor. Nesse livro havia um conto que me surpreendeu tanto que até hoje lembro do efeito da primeira vez na vida que li um último parágrafo de tirar o fôlego. Hoje releio pra ver se sinto o mesmo susto da primeira vez.

O conto chama-se A Aia e lendo hoje me surpeendo ao imaginar que eu menina já guardava em mim uma essiencia maternal fortíssima pra ter gostado tanto desse conto ao ponto de nunca mais tê-lo esquecido.
Lendo-o hoje sinto uma emocão diferente pois a ingenuidade de criança guardou até o finalzinho a surpresa do fim que hoje se revela mais cedo no conto. Mas continuo me emocionando com as imagens que o Eça constrói e principalmente, nesse caso, com a cadiência perfeita da narrativa.

Abaixo transcrevo o conto da minha infância que eu mesma escolhi como preferido. Vou aprender melhor seus detalhes pra contar ao Fausto quando ele crescer e começar a gostar de histórias.

ERA uma vez um rei, moço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua rainha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.

A Lua-cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, começava a minguar - quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do sangue seco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, traspassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio. A rainha chorou magnìficamente o rei. Chorou ainda desoladamente o esposo, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela força e forte pelo amor.

Desses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a realeza por causa dos seus tesouros, e que havia anos vivia num castelo sobre os montes, com uma horda de rebeldes, à maneira de um lobo que, de atalaia no seu fojo, espera a presa. Ai! a presa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guizo de ouro fechado na mão!

Ao lado dele, outro menino dormia noutro berço. Mas este era um escravozinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos tinham nascido na mesma noite de Verão. O mesmo seio os criava. Quando a rainha, antes de adormecer, vinha beijar o prìncipezinho, que tinha o cabelo louro e fino, beijava também por amor dele o escravozinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Sòmente, o berço de um era magnífico e de marfim, entre brocados - e o berço do outro pobre e de verga. A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era o seu filho - o outro seria o seu rei.

Nascida naquela casa real, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. Pertencia, porém, a uma raça que acredita que a vida da terra se continua no Céu. O rei seu amo, decerto, já estaria agora reinando num outro reino, para além das nuvens, abundante também em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pajens tinham subido com ele às alturas. Os seus vassalos, que fossem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em torno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no Céu como fora na terra, e feliz na sua servidão.

Todavia, também ela tremia pelo seu prìncipezinho! Quantas vezes, com ele pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos lentos que correriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre prìncipezinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado - era para ele que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Esse, na sua indigência, nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, na verdade, era para ele mais preciosa e digna de ser conservada do que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela enegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores - dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as mãos do seu príncipe.

No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. E a rainha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. Só a ama leal parecia segura - como se os braços em que estreitava o seu príncipe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpor.

Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergéis reais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas… Num relance tudo compreendeu - o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! Então, ràpidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de verga - e tirando o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no berço real que cobriu com um brocado.

Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou - correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bolsa de ouro, e abafando os gritos no manto, abalou furiosamente.

O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva.

Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a rainha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sobre as lajes, num choro, despedaçada. então calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de verga… O príncipe lá estava, quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de ouro. A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.

E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão dos guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porém, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa poça de sangue. Mas ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá ficara também, envolto num manto, já frio, roxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado!… Assim tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas - quando a rainha, deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o príncipe que despertara.

Foi um espanto, uma aclamação. Quem o salvara? Quem?… Lá estava junto do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho… Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria extática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu coração… E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com súplicas de que fosse recompensada, magnìficamente, a serva admirável que salvara o rei e o reino.

Mas como? Que bolsas de ouro podem pagar um filho? Então um velho de casta nobre lembrou que ela fosse levada ao tesouro real, e escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesouros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse…

A rainha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a Câmara dos Tesouros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam num respeito tão comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lajes. As espessas portas do Tesouro rodaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de ouro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, cintilavam, refulgiam os escudos de ouro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo ah, lento e maravilhado, passou por sobre a turba que emudecera. Depois houve um silêncio, ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se movia… Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido para aquele céu que, além das grades, se tingia de rosa e de ouro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o Sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava decerto, e procurava o seu peito!… Então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua mão aberta. Que jóia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis, ia ela escolher?

A ama estendia a mão - e sobre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um velho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia uma província.

Agarrara o punhal, e com ele apertado fortemente na mão, apontando para o céu, onde subiam os primeiros raios do Sol, encarou a rainha, a multidão, e gritou:

- Salvei o meu príncipe, e agora - vou dar de mamar ao meu filho!

E cravou o punhal no coração.

FIM

O titulo é uma piada do meu ex-cunhado Alexandre Suannes, que conta um episódio engraçado: o espanto de ter conhecido alguém que, dando carona a amigos depois de sair de uma festa, surpreende-os ao revelar suas vontades e intensões sinceras de recorrer aos seviços de um travesti antes de ir pra casa só pra “dar uma relaxada”. Daí a expressão – “hoje eu estou muito cansado. Vou querer só um travesti e cama”. Sempre que penso nessa história acho graça.

Claro que lembrei disso quando vi a foto do Ronaldo estampada nos jornais no dia seguinte do incidente tão falado. Lembrei da piada e ri. Com o passar dos dias lembrei também que antes de ter meu filho eu pensava que queria ser mãe de menina porque sempre achei que ser mulher é muito mais fácil do que ser homem. Posso achar isso talvez porque eu só sei ser mulher. Mas no fundo acho que o mundo cobra e espera mais dos homens enquanto que nós mulheres vamos contornando e conseguindo o que queremos com inteligência, com beleza ou disfarçadamente mesmo, quando ninguém está muito atento. Também pensava que menina dá menos trabalho pra criar porque elas gostam de tomar banho e quase sempre são mais estudiosas que os meninos.

Lendo um artigo do Contardo Calligares (ele mais uma vez) indentifiquei o que pra mim é das primeiras razões do quanto é mais fácil ser mulher. “Muitas culturas (não só a nossa) preferem que, no início do jogo amoroso, os homens façam o primeiro passo. Ultimamente, o recato deixou de ser uma qualidade feminina essencial: uma mulher que se arrisque a ser a primeira a mostrar seu interesse não é mais uma atrevida (ou pior). Mas o hábito permanece: Que os homens se manifestem, e as mulheres aceitem ou rejeitem”. Isso pra mim é um bom exemplo da vantagem de ser mulher. A gente só tem que escolher, gostar e decidir se damos ou não.

O homem sofre cobranças de afirmações o tempo todo. Tem que provar sua masculinidade em diversas etapas da vida. Dependendo do grupo ao qual faz parte só sendo putanheiro mesmo pra conseguir manter a reputação de macho. Fiquei com pena do menino Ronaldo. Famoso mundialmente, um sucesso de pessoa, e que se perdeu nas auto-afirmações há bastante tempo já, e não contente em pegar uma prostituta como dizia o outro “só pra dar uma relaxada” antes de voltar pra casa, acaba com três travestis num Motel do Rio (“motel do Rio” não precisa de adjetivo pra lembrar o quanto pode ser degradante).

A minha geração (as mulheres, pelo menos) que perdeu a virgindade com o primeiro namorado se choca um pouco com histórias de putaria. Na cabeça das meninas que começaram a tomar pílula aos 16 anos criou-se um tabu associado a prostituição. Como assim o cara vai pegar uma prostituta se tem uma namorada linda que dá pra ele. O costume brasileiro de comer empregada então, affffeeee! isso nos é absolutamente repugnante. Enrubescemos de vergonha (e curiosidade) quando pensamos no Bahamas e no fundo queremos ser essas putas lindas, que hoje estão iguais as patricinhas. Nos confundimos porque no mundo todo está na moda ser vulgar.

Aos nossos homens, putanheiros ou não, agradecemos a preferência. Particularmente acho que poderiamos chamar profissionais que nos ensinassem como fazer uma perfeita chupeta por exemplo. Se contratamos “personal” pra tudo porque não aprender a fazer sexo de alta performance.

Voltando ao artigo transcrevo o que realmente me bateu: “O sentimento de que um filho satisfaz a mãe mais do que uma filha continua na cultura, solidamente.
Quer seja pela ilusão de que o filho homem não sumirá pelo mundo afora, mas, por eternizar o sobrenome, ele ficará na tribo (perto da mãe)”
. Isso do nome pra mim é uma bobagem que foi intensionalmente contrariada quando demos ao Fausto os nomes das duas avós (leia post anterior intitulado “prepúcio”). Além disso sabemos que quem cuida de nós quando velhos são as filhas e não os filhos (muitos menos as noras).

O que pegou foi isso aqui: “Quer seja pela sensação de completude que talvez acompanhe a constatação materna de ter conseguido dar à luz um ser tão diferente dela, um ser do outro sexo”.

Eu me espanto todos os dias quando penso que gerei um filho que é igualzinho a mim, mas é um homem.

Porém continuo achando que ser mulher é mais fácil e é o que acham também os camaradas que sairam com o Ronaldo e que nesse instante, como qualquer outra vagabunda genuína, estão aproveitando os poucos segundos de (má) fama.

fausto. 5 meses

15Apr08

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01Apr08

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