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Nunca fui a Veneza. Já me convidaram e eu (que burra) me arrependo até hoje de não ter seguido naquela viagem. Sempre que essa cidade me aparece, em notícias ou em filmes, me vem logo essa sensação de arrependimento e vergonha. Tenho que resolver isso um dia. Preciso ir a Veneza com ele.

Hoje começa a bienal de Veneza e um trabalho de Miranda July está lá. Quando eu gosto de algum artista, busco tê-lo comigo o maior tempo possível – leio todos os livros, vejo todos os filmes, leio entrevistas na Internet, visito o site e o blog até a paixão passar.

Ter topado na livraria com o livro “É claro que você sabe do que estou falando” (título original: No One Belongs Here More Then You”) imediatamente acendeu meu interesse por saber quem é Miranda July.

Um dos filmes de que mais gostei nos últimos anos é dessa menina - Me and You and Everyone We Know (Eu, Você e todos Nós - 2005). Lembro-me da surpresa, vendo TV de madrugada, ao descobrir no final que ela (a atriz) tinha escrito e dirigido esse filme tão bonito e romântico.
O livro é tão bom quanto. Tive pena de não ter lido em inglês, mas a pressa era forte. A tradução não é má, pelo contrário, mas li querendo sempre ouvir a voz dela em inglês. Descobri uma solução. Ela se gravou lendo o livro. (5 horas de leitura). Fez isso pensando nos caminhoneiros e nos cegos. No blog dela dá pra ouvir um trecho. http://mirandajuly.com/. Veja também o que ela mostra em Veneza e um vídeo de outra instalação mais antiga The Hallway.

Apreciando tudo o que ela faz é absolutamente reconhecível pra mim que ela é essencialmente uma escritora. Uma excelente escritora. Mesmo o seu trabalho de artes plásticas e cinema é texto pra mim.

Dá pra reconhecer no livro, no filme, e na instalação The Hallway um traço comum nas imagens que ela constrói. Abaixo transcrevo duas delas bem bonitas:

“Tínhamos amado pessoas que na verdade não deveríamos ter amado e então nos casado com outras pessoas para esquecer nossos amores impossíveis, ou tínhamos uma vez gritado alô para dentro do caldeirão do mundo e então fugido antes que alguém pudesse responder.
Sempre correndo e sempre querendo voltar, mas sempre estando cada vez mais longe até que, finalmente, era só uma cena de filme em que uma garota diz alô para dentro do caldeirão do mundo e você é só uma mulher vendo o filme com seu marido no sofá e as pernas dele estão no seu colo e você precisa ir ao banheiro. “

“Um carro passou lá fora e observamos blocos de luz deslizarem pelo teto. Carl pressionou meu pé pra baixo e eu empurrei o dele para cima. Isso é uma coisa que fizemos na primeira vez que dormimos juntos, é um gesto com sete anos de idade. (…) eu me sinto mais perto dele quando fazemos isso do que em qualquer outro momento. É como se nossos pés tivessem uma relação perfeita, honesta e amorosa, mas, dos tornozelos pra cima, estamos perdidos. Empurro de novo, mas ele não pressiona de volta; ele está dormindo.”

July, Miranda. É claro que você sabe do que estou falando. Tradução Celina Portocarrero. Rio de Janeiro. Agir, 2008.

http://mirandajuly.com/

http://noonebelongsheremorethanyou.com/

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Alguém que eu amava morreu. Alguém que eu amava explodiu.

A partir de agora tudo o que eu sinto é segredo. Nenhuma música do tempo de agora vai servir mais. Não posso ler, porque preciso das palavras pra continuar a minha vida. Nos lugares onde estivemos juntas não entrarei. Sinto vontade de sair andando á pé pra te buscar.

Sei que vou chamar teu nome em silêncio tantas vezes. Sei que vou falar sozinha pra sempre. E sempre que estiver sozinha vou tentar te ouvir. És a minha heroína de romances impossíveis de 1800. Viverás na minha imaginação guardada na década de 50. Serás a minha amiga imaginária e invisível.

Como não tenho Deus, nem céu, nem anjos, nem estrelas; tenho só o Mr. Rochester e o Mr. Darcy e a mim própria pra me lembrar de ti. Tenho os nossos segredos e as nossas confissões garotex, e tenho as minhas lembranças.

Apaguei todas as mensagens escritas do meu telefone e só deixei as tuas. Liguei para o teu só pra te ouvir dizer o próprio nome. O Fausto já dizia o teu nome tão direitinho. Guardei a tua caligrafia num cartão. Preciso de tudo o que deixaste comigo. Preciso ter as unhas sempre coloridas e um batom na bolsa e nunca usá-lo. Preciso de uma franja.

E preciso não contar nada pra ninguém.
Só o Fausto vai saber, vendo o desenho das Princesas do Mar, que você é a Ester. Mas não vai se lembrar dos dias em que eu chorava ao deitá-lo à noite. O teu filho Francisco é o único anjo que reconheço. Segurei um anjo de verdade no meu colo, o anjo da guarda do meu filho.
Todas as noites entregarei o Fausto ao Francisco.

Queria que nunca mais ninguém me visse sem pensar em você. Por isso eu não quero conhecer mais ninguém. Já conheço quem eu quero. Já conheço gente suficiente.

Pra ter você de volta garotex, eu nunca mais falaria com desconhecidos. Eu seria muda perante novos rostos. Eu nunca mais conheceria quem não conheço. Eu não amaria mais pessoas. Eu não teria mais filhos.

Não quero a vida eterna. Quero apenas não te esquecer. Não esquecer a tua voz e as tuas mãos. Estarás comigo sempre. Estarás sempre comigo no dia do meu casamento. Estarás no dia do nascimento dos meus filhos. Ainda estarás aqui no dia da minha morte.

O nome da Princesa Garotex é Heloisa Maria Campbell Alquéres Wright e ela faz aniversário na véspera de Natal.

Travesseirinho.

20May09

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A minha irmã quando era pequena tinha um objeto de apego muito especial: um travesseiro. Seu nome: o travesseirinho. Minha irmã tinha um Calvin, até porque o travesseirinho respondia pra ela. Não passava de um travesseiro normal, tamanho padrão de adulto da cama de solteiro em que ela dormia. Foi ficando velho e fininho de tão gasto e ela passou a dormir com ele escondido por baixo de outros travesseiros mudos. Não se ouvia ela conversar com o travesseirinho como faz a Lola do desenho com seu amigo imaginário, o Soren Lorensen. Pelo menos eu não ouvia, talvez porque eu adormecesse muito rápido ou a conversa deles era mesmo silenciosa e ecoava apenas na caixa da sua consciência. a minha é que nos contava tudo sobre os conselhos e opiniões do travesseirinho.

Acabo de ver um filme surpreendente e que me emocionou muito porque eu via a minha irmã o tempo todo na tela. A Garota Ideal (Lars and the real girl) conta a história de um rapaz que compra uma boneca de silicone na Internet pra ser sua namorada. O filme é muito bonito. Trata a dor do crescimento com muita meiguice.

Mostra a relação entre irmãos, o egoísmo do mais velho que nunca precisou de objetos de apego ou nunca os confessou indispensáveis (os irmão mais velhos fazem muito uma coisa: mentem), e a devoção do mais novo que, já adulto, ainda usa como cachecol, uma mantinha tricotada pela mãe pra ele quando estava grávida. Mostra a devoção de médico, cada vez mais difícil de reconhecer nos doutores que a gente vai conhecendo. Aparecem uma mulher grávida e outra infértil, as duas já e sempre mães de qualquer um. Em certo momento eu me perguntava quem teria escrito o filme – uma mulher ou um homem? Meu palpite mudava a todo o momento. Foi uma mulher: Nancy Oliver. Por esse roteiro original era candidata ao Oscar em 2007 (ano em que ganhou Juno).

Mostrar a boneca junto das pessoas cria imagens incríveis no filme. É bonito vê-la sem falar e sempre de olhos abertos e cara de nada. Sendo apenas a consciência dele e a ajuda pra ele estar na vida. Em algum momento o rapaz pergunta ao irmão mais velho quando ele soube que tinha crescido, como ele soube que já era um homem. Ele pergunta se foi o sexo e o irmão diz que sim, mas depois diz que não foi só isso e se complica todo na explicação. Ele não sabia responder. A parte mais emocionante do filme é ver o sofrimento do cara quando percebe que tem que deixar a boneca. Um sofrimento tão parecido ao que eu vi na minha irmã pra largar o travesseirinho. (Maninha, você precisa ver esse filme).

Conversando há poucos dias com uma criança que eu conheço (um bebezão grande e barbado) e discordando da sua certeza adolescente de que nada tem que ser sofrido eu só disse que não existe crescimento sem dor. Eu pelo menos nunca vi.
Não é que tudo precisa ser sofrido. Mas acontece que é. Simplesmente é assim. Tudo o que é ruim na vida dói. Mas o que é bom dói também. Tudo dói. Se não doeu é porque não aconteceu. Crescer dói tanto. Amar dói pra caralho.

http://www.charlieandlola.com/

http://www.larsandtherealgirl-themovie.com/

há 400 anos.

14May09

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Rembrandt Harmenszoon van Rijn, em 1639, Rijn, Holanda
Gabriel Zellmeister, em 2009, Chaves, Portugal.

MEC.

11May09

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A diferença entre Brasil e Portugal” é o título da crônica de hoje de Matthew Shirts no Estadão. Nela ele cita Miguel Esteves Cardoso e conta que uma professora amiga mandou-lhe um livro do MEC pra mostrar “que esse cara é você em versão lusitana”. - Peraí se faz favor. Desculpa Matthew mas eu, há alguns anos, já tinha falado que a versão brasileira do MEC é o Ricardo Freire. Prova esse fato a coluna Xongas no Jornal da Tarde, do dia 10 de abril de 2002. No referido texto, que comemorava 2 anos de Xongas, o autor da coluna me agradecia os livros do Miguel Esteves Cardoso que eu lhe havia dado de presente a propósito de lhe mostrar as semelhanças que eu já tinha encontrado. De qualquer maneira adorei a menção a esse meu autor tão favorito e, afinal que importância tem a minha opinião comparada `a tua (Matthew) impressa num dos maiores jornais do país, não é verdade?

Miguel Esteves Cardoso é brilhante. É autor de duas peças teatrais, alguns programas de rádio e colaborador em diversos programas televisivos. Em 1987, fundou o jornal O Independente (que já não existe). As suas crónicas escritas para os jornais O Expresso e O Independente foram reunidas em quatro volumes pela editora Assírio & Alvim. Um desses volumes, intitulado “A Causa das Coisas”, foi reeditado sucessivas vezes, tendo ultrapassado os cem mil exemplares. É desse livro que fala o cronista do Estado.

Acabei há pouco de ler “Em Portugal não se come mal”, livro de 2008, que reune crônicas sobre comida publicadas no Diário de Notícias, salvo erro. É excelente. Tenho aqui a espera “Com os Copos*” ainda por começar. Meu barman preferido já leu e disse que é ótimo.

No último Domingo, Daniel Piza, também no Estado de S.Paulo, elogia outro cronista português: João Pereira Coutinho. Este, colunista da Folha de S.Paulo (iniciou a sua carreira jornalista no Independente). Menos brilhante que o MEC (na minha opinião, mas tão de direita quanto), recebeu elogio rasgado do Piza `a coletânea que acaba de ser publicada – “Avenida Paulista”. Estive com este livro na mão e não o comprei. Isso prova que nem tudo que é português me fascina. Daniel Piza chama atenção a influência inglesa (reconheço) desses autores (o Miguel é filho de mãe inglesa, Doutor pela Universidade de Manchester). De direita ou de esquerda, o que essa gente tem de especial é ser culta. Os dois são extremamente conservadores. Os dois tem um sentido de humor raro. Me identifico mais com Miguel Esteves Cardoso por ser escatológico e boca suja, guloso e alcóolatra. Não comprei o livro do Pereira Coutinho talvez por achar que ele é um pouco dobra cueca para o meu gosto, e um tanto misógeno. Mas depois do elogio de um brasileiro a esse autor português vou já a correr comprar o livro.

* Uma boa tradução para a expressão “com os copos” seria “com um grão na asa”. Essa expressão é brasileiro ou português? Olha, nem sei.

CARDOSO, Miguel Esteves.
Com os Copos , Assírio & Alvim, 2007.
Em Portugal Não Se Come Mal, Assírio & Alvim, 2008.

COUTINHO, João Pereira. Avenida Paulista. Record, 2009.

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Imagem: Iberê Camargo. Sem título. Gravura em metal.

Metade das vezes em que o Fausto vem com alguma coisa na mão e pedindo abi, abi, abi, eu digo NÃO. Mas há uma outra metade de coisas que eu abro, ou explico que a coisa não se abre mais do que aquilo. Mas ele sempre me surpreende e me faz lembrar que com boa vontade abre sim (mamãe).
Nos casos do permitido (ou `as vezes permissivo) ele vem com coisas sem valor material ou sentimental pra mais ninguém nessa casa, a não ser ele. Uma tampa de leite Ninho vira um volante e quase tudo sai do lixo reciclável e vem pra sala. Ele adora uma tábua de madeira que sai da cozinha arrastada quase todos os dias e eu sempre reparo no carinho que ele tem por ela que vem arrastadinha pela mão pequena como se fosse uma outra criança amiguinha.

A metade do NÃO são para coisas nas quais ele não pode tocar nem hoje nem nunca, por uma simples razão: não são dele. E para os pais que discordarem disso eu digo: - vocês estão loucos.

A maneira como uma criança larga um objeto ou brinquedo não dá pra ser imitada facilmente. No desenho Toy Story isso é mostrado de uma maneira sublime e pra mim o mais engraçado no filme é a preocupação dos brinquedos em voltar para o mesmo lugar ou situação em que a criança os deixou. Outro exemplo da vida secreta dos objetos ditos inanimados é o que escreveu o uruguaio Felisberto Hernández (O cavalo perdido e outras histórias, Cosac Naify). Ele consegue ver, como as crianças, que as coisas respiram e tudo é de abrir. Acho que vamos crescendo e perdendo essa capacidade de enxergar.

Estava eu hoje de manhã a dizer sins e nãos ao Fausto durante o café quando encontrei dois envelopes pra mim em cima da mesa ao lado dos jornais. Um envelope era grande e amarelo. Era do Elson, meu contador. Lá dentro está (até agora sem abrir) minha declaração do IR 2008. Nem abro isso porque a minha vida é tão simples e igual há tanto tempo. É tão fácil fazer a declaração sozinha pela internet mas eu gosto tanto do Elson. Gosto mais dele do que gosto de pensar nesse assunto e por isso pago satisfeita só pra falar com ele poucas vezes por ano. Pago pra dizer “ olha Elson, tá tudo igual: mesmo carro, mesma conta, a moto eu vendi o ano passado lembra? o curso de alemão continua, eu não desisti ainda não“. Eu reparo que `as vezes ele se preocupa comigo. Ele deve ter medo que eu sonegue, deve pensar “não é possível, essa menina não prospera”.

A outra carta era um envelope branco no padrão brasileiro de papelaria – o simples e certo, sem o verde e amarelo na borda que é o padrão para o correio internacional (aliás o meu preferido, que eu sempre levava dos hotéis quando era criança).
Por fora o meu nome completinho, Ana Carolina de Oliveira Ramos, escrito na letra mais perfeita. Bati o olho e sorri – carta da Gecy. O remetente confirmava: Gecy dos Reis 11420 – Guarujá. A alegria de receber uma carta é difícil de ser superada por outros acontecimentos (todos) mais banais. As flores que chegam com cartão e com o suspense do tentar imaginar quem mandou, com sua pompa e mistério consegue, no máximo, se as flores foram bem escolhidas, empatar com a emoção de uma carta. A coceira de uma carta ainda fechada, nenhum e-mail me deu.

Segurei, cheirei, beijei, comemorei antes de abrir com cuidado. Eu mesma pedi pra mim em voz alta abi, abi, abi. Dentro vinha o mesmo papel azul escuro, a mesma letra de professora escrita com caneta de tinta branca. Li alto: “Querida Ana”. O Fausto repetiu meu nome pela primeira vez. E fico feliz que tenha sido por conta da carta dessa amiga, que escreveu para agradecer a primeira visita `a minha casa. Pra isso ela recorreu a um poema de Neruda que me fez olhar pra minha sala atentamente essa manhã.

Ode a las cosas

Amo las cosas loca, locamente.
Me gustan las tenazas,
las tijeras,
adoro las tazas,
las argollas,
las soperas,
sin hablar, por supuesto,
del sombrero.
Amo todas las cosas,
no sólo las supremas,
sino las infinitamente chicas,
el dedal,
las espuelas,
los platos,
los floreros.

Ay cuántas cosas puras ha construido el hombre:
de lana,
de madera,
de cristal,
de cordeles,
mesas maravillosas,
navíos, escaleras.

Amo todas las cosas,
no porque sean ardientes o fragantes,
sino porque no sé,
porque este océano es el tuyo,
es el mío:
los botones,
las ruedas,
los pequeños tesoros olvidados,
los abanicos en cuyos plumajes desvaneció el amor
sus azahares,
las copas, los cuchillos,
las piedras,
todo tiene en el mango, en el contorno,
la huella de unos dedos,
de una remota mano perdida
en lo más olvidado del olvido.

Yo voy por casas,
calles,
ascensores,
tocando cosas,
divisando objetos que en secreto ambiciono:
uno porque repica,
otro porque es tan suave
como la suavidad de una cadera,
otro por su color de gua profunda.
otro por su espesor de terciopelo.

Oh río irrevocable de las cosas,
no se dirá que sólo amé
lo que salta, sube, sobrevive, suspira.
No es verdad:
muchas cosas
me lo dijeron todo.
No sólo me tocaron
o las tocó mi mano,
sino que acompañaron
de tal modo mi existencia
que conmigo existieron
y fueron para mí tan existentes
que vivieron conmigo media vida
y morirán conmigo media muerte.

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Bo, o cão de água português da família Obama, já chegou à Casa Branca. E o meu Porto perdeu hoje pro Manchester United nas quartas de final. Gol do Cristiano Ronaldo. Esses chutes de longe dele sempre vão pra fora. Hoje tinha que entrar, carago*.

*palavrinha expressiva muito usada pelos habitantes (os mais fiéis torcedores) da Inbicta cidade do Porto.

Cão d’água.

26Feb09

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O anúncio que o cão de água português poderia, quiçá, vir a ser a raça escolhida para totó das filhas do Obama foi, até bem pouco tempo atrás, a notícia mais importante nos meios de comunicação em Portugal. Agora já mudaram de assunto e concentram-se em atacar o Primeiro Ministro acusando-o de corrupção (acusação essa totalmente infundada). Explica-se pelo fato de ser ano de eleição. Mas o pleito é só em Outubro. Dá pra imaginar os meses que ainda faltam e os jornais e TVs sempre a falar da mesma coisa?
Apesar do silêncio ciumento da mídia internacional a notícia do cão d’água deixou os portugueses em alvoroço pois afinal, em princípio, existe a possibilidade de, se calhar, um português residir na casa branca. A raça canina que já foi a mais rara do mundo nos anos 70, agora pode vir a ser a mais hype do planeta.
A origem desta raça perde-se no tempo. Julga-se que pode ter chegado a Portugal pela mão dos habitantes do Norte de África, quando estes invadiram o território. Famoso por gostar de nadar, seja num lago calmo ou no mar mais agitado, possue nas suas patas umas membranas interdigitais, semelhantes às encontradas nas aves aquáticas, que lhe permite nadar com extrema facilidade. É uma raça muito difundida e apreciada nos Estados Unidos da América. Eu, que nunca perco uma transmissão de um Eukanuba National Championship, aguardo ansiosa por aparecer o grupo dos working dogs, só pra ver esses bichos puro sangue lusitano. Confesso que adoro esses concursos caninos e fica aqui a recomendação de um filme muito engraçado cujo título é o mesmo do concurso canino mais importante “Best in Show”.
Eu sempre achei que o penteado com que o cão d’água costuma aparecer nesses programas de TV e que o deixa com cara de poodlle gigante, fosse afetação pra concurso canino. Mas lendo as instrutivas matérias da imprensa portuguesa, descobri que esse corte é ideia dos romanos (sempre eles) que mantinham o bicho com pêlo cumprido da cabeça até as costelas para proteger os órgãos vitais da água fria, mas raspavam a metade posterior do bicho pra ajudar a natação. Por isso a espécie recebeu dos romanos o apelido de cão leão. Durante muitos anos foi o companheiro dos pescadores tanto na praia a puxar redes de arrasto, como em alto mar a mergulhar pra buscar coisas que caissem dos barcos.
Portugal (e entre todos os portugueses a minha mãe é uma especialista) tem o hábito de idolatrar tudo o que é português ou Portugal no estrangeiro. (mais ou menos como a Rede Globo faz com tudo o que é brasileiro). Já tínhamos o Manchester do Cristiano Ronaldo, o Inter do Mourinho, e com essa possibilidade de ver o presidente americano a andar atrás de um português para lhe limpar o cocô, um canídeo leva o nome de Portugal mais longe.
A verdade é que as raças portuguesas são de animais (e não falo só de cães) dóceis, fiéis, amorosos e pensativos - são animais de olhar profundo. Um leão nascido em Portugal é manso. Uma águia é sonhadora. Uma cegonha que aqui tem um ninho é atriz de teatro. Quem já leu o último livro do Saramago (que eu adorei, aliás) percebeu como um elefante que depois de viver a beira do Tejo, nunca mais deixou de sentir saudades das memórias (no seu caso prodigiosas) de Lisboa.

Aqui descrevo outras raças portuguesas, sobre as quais nunca tinha ouvido falar, e que agora ganham destaque por conta do protagonismo do colega cão d’água:

Cão de Fila de São Miguel.
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Os nomes portugueses são sempre os mais literais ou os mais esdrúxulos possível. O nome das raças caninas é um exemplo disso. Como o próprio nome já explica, a origem deste cão é a Ilha de S.Miguel nos Açores. É menor que os outros cães fila, e diferente no aspecto de que este é um animal inteligente e com facilidade de aprendizagem. Rústico e corpulento é musculoso, e como todo o ilhéu deve ser um bocado introspectivo (digo eu). O jornal dizia que “pode ser um excelente cão de guarda e mostrar-se agressivo quando necessário”.

Cão da Serra de Aires.
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Mais um caso de óbvia origem. Cão pastor de grande inteligência que tem como característica principal a forma de se mover com leveza e muita agilidade. Ganhou o apelido de cão macaco por conta da sua elasticidade. Corpulência media e não muito pesado.

Cão de Gado Trasmontano.
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Foi pra mim a descoberta mais interessante. Utilizado para guardar os rebanhos de gado maior em regiões de muitos lobos, este cão é talhado pra essa missão. Pois é grande (o maior de todos) e muito corajoso e imponente. Os machos podem chegar a 65 Kg e a altura média é de 84 cm. É cauteloso, mas não agressivo; independente, mas precisa ser educado para obedecer. Apesar do seu tamanho é muito sensível a carinhos e atenções. (enfim, um legítimo trasmontano).

Barbado da Terceira.
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E esse nome não é lindo? Pra que complicar? Mas pra quem, mesmo assim, não compreender o jornal ainda explica: “deve o seu nome ao pêlo comprido (pode ser de várias cores e padrões) que lhe cobre o corpo todo, em especial a mandíbula e o queixo”. Oh língua mãe! Sempre acha que precisa explicar mais detalhadamente, vai que alguém não repara no nome. Fazem bem. Origem óbvia: Ilha Terceira nos Açores. Esta espécie foi a última raça portuguesa a ser reconhecida (2004). É um cão de porte médio, rústico e forte que pode ser usado como pastor, cão de guarda e luluzinho de estimação. É meigo e fácil de ensinar.

Acabaram-se as raças portuguesas por mim desconhecidas. Vamos aquelas que eu adoiro, as que eu já vi e acarinhei. Alguns desses até moram lá em casa.

Castro Laboreiro.
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Esse cão já vem com um lindo sobrenome. O que tem lá em casa chama-se Preto de Castro Laboreiro. Não dá pra ser mais chique. É um animal grande, forte e bem alto. (entre 58 e 64 cm). São cães pastores famosos. Rezam as lendas que os Castro Laboreiro são capazes de perseguir lobos por longas distâncias, voltando pra casa depois de muitos dias. São bons animais de companhia, carinhosos com crianças, extremamente fiéis, mas “o gene de cão de guarda manifesta-se quando confrontados com estranhos, situação em que se pode mostrar agressivo”. O Preto nunca cedeu muitos carinhos ao meu ex-cunhado Suannes só porque este tem mais de 2m de altura. Sempre que o via, latia estridente andando pra trás.

Perdigueiro Português.
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Esse é um cão de caça genuíno. O termo técnico é “de parar”. Porte médio, leve, pêlo curto, muito meigo e afetivo. A sua existência em Portugal está documentada desde o século XII.

Podengo Português.
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Cão preferido da minha amiga Mafiosa, este é o vira-lata puro sangue lusitano. Existem três tamanhos (P,M e G) com pêlos de várias cores e feitios. Usado originalmente para caçar coelhos, foi para caçar ratos que o podengo pequeno embarcou em muitas naus na era dos Descobrimentos. Suponho que amou cadelinhas exóticas desde a China ao Brasil, do Japão a S. Tomé e Príncipe, dando origem a todos os inteligentes vira-latas do planeta.

Rafeiro Alentejano.
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Essa expressão calma do animal da fotografia deve-se ao fato de ser um animal Alentejano, a raça (de bichos e homens) cujo característica principal é a tranqüilidade e a lentidão. Os Rafeiros Alentejanos são cães grandes e corajosos. Bons cães de guarda, mas originalmente integram matilhas de caça grossa. É dócil com as crianças mas firme com estranhos.

Cão da Serra da Estrela.
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Tem um lá em casa. O Leão (quem o conhece não desmente) é o animal mais incrível do mundo. É o cão mais meigo, doce e gentil que eu já vi. Talvez seja o cão português mais facilmente identificável. O nosso Leão é especial, pelos outros todos que andam por aí não respondo.

haka.

12Feb09

Sou uma admiradora de râguebi (é assim que se escreve em Portugal). Sou fãsoca mesmo. Aprendi a gostar no tempo que vivi em Lisboa e quando tem copa do mundo eu paro a vida pra assistir aos jogos das seleções. Sim, é verdade. Em Portugal se joga rugbi. E bem. A seleção desse esporte aqui alcançou historicamente melhores resultados do que no futebol, ou ao menos ficou com melhor fama.

A verdade é que os portugueses mais lindos do país jogam râguebi, e isso é um faCto. Tá bom, eu sei… muitos vão pensar que o meu interesse se justifica apenas pelo fato de 98% dos jogadores de rugby do planeta corresponderem ao modelo helênico de beleza ideal masculina e, podemos até afirmar, que não é mentira. Mas não é por isso que eu gosto de rugby. Essas características físicas dos jogadores ajuda no espectáculo mas a razão do meu interesse é achar que esse jogo é bonito. Pancadaria? Nada disso. Vale referir aqui o meu gosto por boxe e o fato de eu achar que Acelino Popó Freitas é o atleta brasileiro mais bonito, seguido de perto pelo Dida e um tanto depois vem o Robert Scheidt.

A seleção de rugby da Nova Zelândia, mais conhecida como All Blacks, pois vestem um uniforme todo preto elegantíssimo, encaram seus adversários antes do jogo com a haka “Ka Mate”. A haka é uma dança maori que pode ter o propósito de diversão, boas-vindas, comemoração ou preparação para a guerra. Muito sinceramente acho que se o Fausto visse isso acharia que eles estavam a fazer coco. Muito emocionalmente acho bonito.

Enquanto a seleção de futebol brasileira canta o incompreensível hino nacional abraçadinha pra Jesus (juro que a letra do pai nosso é mais clara) e quando faz gol beija aliança ou embala neném, os All Blacks querem parecer ameaçadores com uma dança estranha e, confesso, meio exagerada, embora arrepiante.

http://www.youtube.com/watch?v=DGwGBTG4TkA

Deu no jornal “O Público” de hoje que a Nova Zelândia está devolvendo a haka à tribo maori. Essa dança aborígene tem quase 200 anos, e seus direitos foram devolvidos à tribo maori para evitar sua exploração comercial. A cedência dos direitos de propriedade intelectual faz parte de um acordo através do qual o Governo da Nova Zelândia procura compensar a tribo Ngati Toa pelos abusos de que foi alvo ao longo da história (não faz lembrar nosso feriado recentemente criado - o do Dia da Consciência Pesada?) e também é óbvio que resolve uma batalha judicial interminável movida pelos, não tão ingénuos, maoris que há muito disputavam o registro da “marca”.

O ritual foi composto por Te Rauparaha, um antigo chefe de guerra, no início do século XIX. Há um detalhe nesse acordo que é a indenização no valor de 49 milhões de euros e mais a atribuição de terras nas principais ilhas do arquipélago. Isso paga o direito dos neozelandeses sobre o uso da (haka) Ka Mate que os All Blacks tem usado há muito tempo.

No último mundial de rugby em 2007 na França (vencido pela África do Sul contra a Inglaterra, numa final histórica) os All Black ganharam muito destaque por conta desse ritual e são sempre um dos favoritos. Nessa mesma época, em Montalegre, vila não muito distante de onde estou, um grupo de amigos, criou a haka barrosã e alguém que eles não conheciam colocou no Youtube.

http://www.youtube.com/watch?v=HbQqjvWLZuA

Passaporte.

08Feb09

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Portugal é mesmo um país queridinho, um país muito fofo. O que me leva a pensar isso também me faz esquecer tudo o que me irrita nesta terra onde estou.
Um exemplo: a maldita formalidade que obriga o uso de títulos antes dos nomes: Sr. Doutor, Sr. Professor, Sr. Arquiteto, Sr. Engenheiro, Sr. Coronel, Sr. Capitão, e por aí vai. Outro exemplo: a resposta nacional mais rápida a tudo o que se pergunta, porque é a mais fácil: NÃO.
Isso NÃO pode ser”, “aqui NÃO é assim”, e a frase usada em Portugal que eu mais detesto: “NÃO inventes”. Um país que não inventa está desgraçado. Nunca vou aceitar que criatividade seja um defeito. Desconheço a origem desse negativismo e dessa vaidade e nem perco o meu tempo a pensar nisso. Prefiro admirar as qualidades que adoro. Com a minha nacionalidade brasileira também faço isso. (Será que faço assim porque afinal sou brasileira? Pensarei nisso mais tarde).

O que me enterneceu foi abrir um envelope dos Correios de Portugal que trazia dentro o passaporte português do Fausto. Depois de admirar a foto do meu menino de 15 meses, que está sério mas com olhos brilhantes e ternos, com aquelas bochechas que são um exagero de fofura, passo a folhear o documento que cheira a novo. Quando percebo os desenhos nas páginas penso logo que não deve haver no mundo um país que coloque como marca dágua das páginas do seu passaporte a figura de um poeta. E Portugal colocou dois.

Cada página aberta mostra Luis de Camões à esquerda e Fernando Pessoa à direita. Um país que considera a língua, a escrita, a poesia, como símbolo nacional é especial. A data mais importante do calendário português é o feriado de 10 de Junho – Dia de Camões, dia da Língua Portuguesa, dia de Portugal. Algum outro país tem algo semelhante?
Quem souber que me conte. Não estou a dizer que outras nacionalidades não têm poetas como estes. Nada disso. Apesar de Camões e Fernando Pessoa serem gênios inquestionáveis, não estou a gabá-los. Outros gênios, oriundos de outras terras, tiveram a mesma importância (e até maior, depende sempre do que é importante pra cada um).

A Alemanha por exemplo, colocaria o Bach ou o Goethte nas folhas do Reisepass? No documento americano estaria alguma vez Walt Whitman? A Inglaterra e Espanha têm moedas lindas com o perfil da sua Rainha e do seu Rei respectivamente, mas no passaporte acho que Shakespeare e Cervantes não ficariam nada mal. Afinal quantos paises do mundo tem um desses? Não muitos.

Porque nos dinheiros acho que ficam bem os presidentes do passado, reis e rainhas, navegadores e descobridores, fundadores, inventores… pois há uma associação direta com o que se pode fazer com uma cédula ou moeda: comprar, trocar, fundar, edificar, inventar, inaugurar, reinar. Mas nas páginas que servem apenas pra voar, fugir, escapar, abandonar, regressar, encontrar, vagar, nessas ficam melhor os poetas.

Talvez só eu tenha achado isso bonito e invulgar. Se calhar a maioria dos portugueses nem gostou desse passaporte novo. O resto do mundo quer lá saber o que são esses desenhos do Julio Pomar.

O que eu sei é que vou gostar de ver o carrancudo policial da fronteira americana no aeroporto JFK em NY a escolher onde bater seu carimbo sujo. Em cima do olho fechado de Camões ou nos óculos do Pessoa. Enquanto ele me trata com mal educada indiferença eu me resguardo a zombar “eu falo portuguêêêêês e você não lá lá lá lá lá lá ”. Mesmo que a mãe do truculento ignorante, orgulhoso da sua autoridade de Nação mais poderosa do mundo, seja professora de Literatura Portuguesa, ele nem imagina que se escolher carimbar o Pessoa por exemplo, nunca vai ter a certeza em quem bateu, não tem como saber se é Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos naquela página aberta. E mais confuso vai ficar se reparar que na contracapa do passaporte há três desses dos óculos iguais, sentados a mesma mesa. E se o estúpido sonhasse que o líquido dentro do copo que está sobre a tal mesa é absinto, manda o Fausto direto pra salinha.


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